CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO 40 ANOS DE ARTE – 1985
Década de sessenta. Ildeu mergulha trinchas e pincéis no magma líquido que escorre pelo interior da terra e dali retira massas volumosas, cores vibrantes e a inspiração para formar novos mundos, numa constante busca do espaço infinito. Nesta procura, transcende os limites da representação real e, através da percepção aguçada, situa a pintura dentro de uma nova síntese plástica, de composição livre que só respeita a expressividade autônoma identificada com o sentimento do universal. A compacta tessitura modelando a superfície talhada e de relevos numerosos, vibra com a força expressiva que mistura as cores num amplo registro de contrastes vibrantes. É a explosão cósmica da cor: rápida combustão de meteoros, crateras que fendem a luz como um foco de sombras ofuscantes e rápidas manchas de cores que, procurando no espaço sua verdade pictórica, encontraram nas pinceladas pastosas e na massa compacta a sua expressão.
Anos oitenta. Ildeu retoma a magia de criar novos mundos. A contínua experimentação no sentido de ampliar os meios de expressão trouxe-o à superfície da terra. E, mais exatamente, às pedras de Minas: a ardósia rugosa e manchada pelo ferro de nosso solo. O caos anterior agora é invocado com contenção. A explosão da cor cede ao predomínio do ritmo. As pedras coladas na tela fundem-se na pintura de textura numa reunião de elementos informais – a energia, a confusão e a ordem funcionam como concepção da obra vital e libertadora. O espaço da tela como pressuposto da existência e como constatação da ordem física que lhe permite realizar uma experiência, jogando esta tela como o local, por excelência, da criação. O espaço é inerente à estrutura desta nova fase e calca suas origens na própria qualidade física do material recolhido cuidadosamente. Ordenando o caos, propõe-nos um espaço de infinita matéria.
Maria do Carmo Arantes-Membro da ABCA e AICA
CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO 40 ANOS DE ARTE – 1985
Organizada e pacientemente, Ildeu Moreira foi guardando, guardando, guardando tudo o que fazia, desde os primeiros desenhos, de quando, ainda jovem trabalhava em publicidade.
Àquele tempo, porém, já eram criações artísticas elaboradas na mais rigorosa técnica do desenho hiperrealista, no lápis puro, nas aguadas, nanquins e guaches, tão perfeitos como se fossem trabalhos fotográficos em preto e branco ou a cores.
E foi sobre esse embasamento que Ildeu construiu sua obra maior, uma obra que se fez completa, ao longo de quarenta anos de incessante criação.
No desenho revelou-se forte, desembaraçado, preciso, sólido e seguro, pautando-o nos termos da figuração expressionista ou, em outras séries, no discurso da semiabstração lírica e por vezes, definitivamente geométrica.
A pintura, caminhando na mesma direção, atingiu a medida exata de um admirável aperfeiçoamento técnico. Seus grandes espaços cobrem-se de uma gestualidade larga e exuberante, compondo harmonias cromáticas em texturas lisas, macias e transparentes; ou ainda, em massas espessas e crostas densas, acrescidas de materiais diversos, que sugerem formas ou não formas e geram volumes, com os quais Ildeu propõe uma nova dimensão para sua pintura.
Determinação, coragem, impetuosidade, espírito de descoberta, pesquisa e sobretudo muito senso de arte são atributos inerentes ao caráter artístico de Ildeu Moreira, de quem, muito justificadamente se realiza essa retrospectiva, em comemoração aos seus quarenta anos de efetiva contribuição para a história da arte mineira e brasileira.
Mari’Stella Tristão